Nem todo Transtorno Alimentar gira em torno do medo de engordar. O TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo) e condições emergentes como a Ortorexia e a Vigorexia são doenças psiquiátricas sérias que afetam a nutrição e a funcionalidade social, indicadas para tratamento psicológico e reeducação sensorial, visando restaurar a liberdade de comer e viver.

Por muito tempo, a psiquiatria focou quase exclusivamente na Anorexia e Bulimia. No entanto, muitas pessoas sofrem em silêncio com hábitos alimentares que, embora não visem a magreza, destroem sua qualidade de vida. Pais de crianças “seletivas” são chamados de permissivos; adultos obcecados por “comida limpa” são elogiados por sua disciplina, enquanto adoecem por dentro.

Este artigo finaliza nosso Guia Médico Completo sobre Transtornos Alimentares explorando o “Lado B” dessas condições: os transtornos que você talvez tenha, mas não sabia que tinham nome.

TARE: Muito Além de “Ser Chato para Comer”

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), ou ARFID em inglês, foi oficializado recentemente no DSM-5. Diferente da anorexia, a pessoa com TARE não tem distorção de imagem corporal e não tem medo de ganhar peso. O problema é a interação com a comida.

Os 3 Perfis do Paciente com TARE

Clinicamente, identificamos três subtipos principais, que podem ocorrer isolados ou misturados:

  1. Sensorial: A pessoa rejeita alimentos baseada em textura, cheiro, cor ou temperatura. Exemplo: “Não como nada mole/pastoso” ou “Não como nada verde”. A aversão é física, causando náusea real.
  2. Falta de Interesse: Pessoas que genuinamente não sentem fome ou prazer em comer. Comer é visto como uma “tarefa chata” e esquecível. Frequentemente associado ao TDAH.
  3. Medo de Consequências Aversivas: Ocorre geralmente após um trauma (engasgo, vômito intenso, reação alérgica). A pessoa para de comer sólidos por medo paralisante de morrer engasgada ou vomitar (emetofobia).

TARE em Adultos (O Sofrimento Invisível)

Muitos acham que é doença de criança. Mas adultos com TARE sofrem imensamente. Eles evitam jantares de negócios, encontros amorosos e viagens por medo de não ter “aquela única marca de batata frita” que conseguem comer. A desnutrição de micronutrientes (ferro, B12, zinco) é comum, mesmo que o peso seja normal.


Ortorexia Nervosa: Quando o “Saudável” Vira Doença

Ainda não oficializada no DSM, mas amplamente reconhecida na prática clínica, a Ortorexia é a obsessão patológica por comer de forma “correta” ou “pura”.

A Linha Tênue: Vida Saudável vs. Ortorexia

Querer comer bem é positivo. O problema começa quando a dieta controla a vida (Information Gain). Veja a diferença:

Hábito Saudável Ortorexia Nervosa
Escolhe orgânicos quando possível. Tem crise de pânico se precisar comer algo não-orgânico.
Evita glúten por intolerância diagnosticada. Corta glúten, lactose, açúcar e lectinas por medo irracional de “venenos”.
Fura a dieta em festas sem culpa. Leva marmita para casamentos ou deixa de ir para não “contaminar” o corpo.
Objetivo: Ter energia e saúde. Objetivo: Sensação de superioridade moral ou pureza espiritual.

O isolamento social é o sintoma mais marcante. O paciente ortoréxico julga o prato alheio e se recusa a comer qualquer coisa que não tenha preparado milimetricamente, levando à desnutrição paradoxal (comer só “superfoods” mas faltar macronutrientes básicos).


Vigorexia (Dismorfia Muscular): A “Anorexia Reversa”

Afeta majoritariamente homens. O indivíduo se enxerga fraco, pequeno e murcho, mesmo sendo extremamente musculoso. É uma obsessão por ganho de massa magra.

  • Sintomas: Treino excessivo (mesmo lesionado), dietas hiperproteicas rígidas, uso abusivo de suplementos e, frequentemente, uso de esteroides anabolizantes (bomba) com riscos cardíacos e hepáticos graves.
  • O Perigo: O foco na estética muscular ignora a saúde funcional. O paciente sacrifica trabalho e família para não perder um treino ou uma refeição cronometrada.

Outros Transtornos Específicos (OSFED)

O grupo OSFED (Outros Transtornos Alimentares ou da Ingestão Alimentar Especificados) engloba condições que causam sofrimento real mas não fecham critérios completos:

Síndrome do Comer Noturno

A pessoa não tem fome de manhã, mas à noite consome mais de 25% das calorias do dia, muitas vezes acordando de madrugada para comer (com consciência plena, diferente do sonambulismo). Está ligada a desregulação do ciclo circadiano e melatonina.

Transtorno de Ruminação

Não confundir com refluxo. É a regurgitação repetida e voluntária (mas sem náusea) do alimento recém-ingerido, que é remastigado, engolido novamente ou cuspido. Pode causar desnutrição, erosão dentária e isolamento social severo por vergonha do ato.

Pica (Alotriofagia)

O desejo persistente de ingerir substâncias não nutritivas: terra, gelo (pagofagia), cabelo, tinta, papel. Frequentemente associada a deficiências minerais (como falta de ferro/anemia) ou deficiência intelectual, mas pode ocorrer em quadros de estresse intenso.


Tratamentos Específicos para Estes Quadros

Como não envolvem necessariamente o medo de engordar, o tratamento muda:

1. Dessensibilização Sistemática (Para TARE)

É uma técnica de exposição gradual. O paciente não é forçado a comer o alimento “assustador” de uma vez.

Etapas: 1. Olhar para o alimento -> 2. Cheirar -> 3. Tocar -> 4. Lamber -> 5. Morder e cuspir -> 6. Engolir.

Tudo feito em ambiente seguro, com terapeuta ocupacional ou fonoaudiólogo especializado em disfagia/seletividade.

2. Reestruturação Cognitiva (Para Ortorexia)

O foco é desconstruir o pensamento mágico de “pureza”. O paciente aprende que comer um brigadeiro não vai “sujar” seu corpo ou causar uma doença imediata. A meta é a flexibilidade metabólica e mental.

3. Tratamento Médico de Base

Para casos de Pica, repor o ferro ou zinco muitas vezes cura o comportamento. Na Síndrome do Comer Noturno, o uso de medicamentos psiquiátricos que regulam o sono e a saciedade (como ISRS) é fundamental.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Meu filho só come nuggets e batata. É TARE?

Pode ser. Se essa restrição impede o crescimento, causa falta de vitaminas ou gera estresse familiar intenso, é provável que seja TARE e não apenas “fase”. A avaliação com gastropediatra e psiquiatra infantil é necessária.

Ortorexia vira Anorexia?

Pode evoluir. Começa cortando glúten, depois lactose, depois carboidratos… a lista de alimentos “permitidos” fica tão pequena que o paciente entra em desnutrição severa, desenvolvendo sintomas anoréxicos secundários.

Vigorexia tem cura?

Sim, mas a adesão é difícil, pois o paciente recebe reforço social positivo (“nossa, como você é focado/forte”). O tratamento exige psicoterapia para tratar a dismorfia corporal (ver-se pequeno).

Adulto pode desenvolver TARE depois de velho?

Sim, especialmente o subtipo “medo de consequências aversivas”. Um adulto que engasgou seriamente com um pedaço de carne pode desenvolver fobia e parar de comer sólidos abruptamente.

Comer gelo é doença?

A pagofagia (vontade de mastigar gelo) é um sintoma clássico de anemia ferropriva (falta de ferro). Tratar a anemia geralmente resolve o desejo. Se persistir, investiga-se causas comportamentais (Pica).


Referências Bibliográficas

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
  • Bryant-Waugh, R. (2013). Feeding and eating disorders in children. Current Opinion in Psychiatry.
  • Dunn, T. M., & Bratman, S. (2016). On orthorexia nervosa: A review of the literature and proposed diagnostic criteria. Eating Behaviors, 21, 11-17.
  • Pope, H. G., et al. (2000). The Adonis Complex: The Secret Crisis of Male Body Obsession. Free Press.
  • Thomas, J. J., & Eddy, K. T. (2019). Cognitive-Behavioral Therapy for Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder: Children, Adolescents, and Adults. Cambridge University Press.

Nem todo Transtorno Alimentar gira em torno do medo de engordar. O TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo) e condições emergentes como a Ortorexia e a Vigorexia são doenças psiquiátricas sérias que afetam a nutrição e a funcionalidade social, indicadas para tratamento psicológico e reeducação sensorial, visando restaurar a liberdade de comer e viver.

Por muito tempo, a psiquiatria focou quase exclusivamente na Anorexia e Bulimia. No entanto, muitas pessoas sofrem em silêncio com hábitos alimentares que, embora não visem a magreza, destroem sua qualidade de vida. Pais de crianças “seletivas” são chamados de permissivos; adultos obcecados por “comida limpa” são elogiados por sua disciplina, enquanto adoecem por dentro.

Este artigo finaliza nosso Guia Médico Completo sobre Transtornos Alimentares explorando o “Lado B” dessas condições: os transtornos que você talvez tenha, mas não sabia que tinham nome.

TARE: Muito Além de “Ser Chato para Comer”

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), ou ARFID em inglês, foi oficializado recentemente no DSM-5. Diferente da anorexia, a pessoa com TARE não tem distorção de imagem corporal e não tem medo de ganhar peso. O problema é a interação com a comida.

Os 3 Perfis do Paciente com TARE

Clinicamente, identificamos três subtipos principais, que podem ocorrer isolados ou misturados:

  1. Sensorial: A pessoa rejeita alimentos baseada em textura, cheiro, cor ou temperatura. Exemplo: “Não como nada mole/pastoso” ou “Não como nada verde”. A aversão é física, causando náusea real.
  2. Falta de Interesse: Pessoas que genuinamente não sentem fome ou prazer em comer. Comer é visto como uma “tarefa chata” e esquecível. Frequentemente associado ao TDAH.
  3. Medo de Consequências Aversivas: Ocorre geralmente após um trauma (engasgo, vômito intenso, reação alérgica). A pessoa para de comer sólidos por medo paralisante de morrer engasgada ou vomitar (emetofobia).

TARE em Adultos (O Sofrimento Invisível)

Muitos acham que é doença de criança. Mas adultos com TARE sofrem imensamente. Eles evitam jantares de negócios, encontros amorosos e viagens por medo de não ter “aquela única marca de batata frita” que conseguem comer. A desnutrição de micronutrientes (ferro, B12, zinco) é comum, mesmo que o peso seja normal.


Ortorexia Nervosa: Quando o “Saudável” Vira Doença

Ainda não oficializada no DSM, mas amplamente reconhecida na prática clínica, a Ortorexia é a obsessão patológica por comer de forma “correta” ou “pura”.

A Linha Tênue: Vida Saudável vs. Ortorexia

Querer comer bem é positivo. O problema começa quando a dieta controla a vida (Information Gain). Veja a diferença:

Hábito Saudável Ortorexia Nervosa
Escolhe orgânicos quando possível. Tem crise de pânico se precisar comer algo não-orgânico.
Evita glúten por intolerância diagnosticada. Corta glúten, lactose, açúcar e lectinas por medo irracional de “venenos”.
Fura a dieta em festas sem culpa. Leva marmita para casamentos ou deixa de ir para não “contaminar” o corpo.
Objetivo: Ter energia e saúde. Objetivo: Sensação de superioridade moral ou pureza espiritual.

O isolamento social é o sintoma mais marcante. O paciente ortoréxico julga o prato alheio e se recusa a comer qualquer coisa que não tenha preparado milimetricamente, levando à desnutrição paradoxal (comer só “superfoods” mas faltar macronutrientes básicos).


Vigorexia (Dismorfia Muscular): A “Anorexia Reversa”

Afeta majoritariamente homens. O indivíduo se enxerga fraco, pequeno e murcho, mesmo sendo extremamente musculoso. É uma obsessão por ganho de massa magra.

  • Sintomas: Treino excessivo (mesmo lesionado), dietas hiperproteicas rígidas, uso abusivo de suplementos e, frequentemente, uso de esteroides anabolizantes (bomba) com riscos cardíacos e hepáticos graves.
  • O Perigo: O foco na estética muscular ignora a saúde funcional. O paciente sacrifica trabalho e família para não perder um treino ou uma refeição cronometrada.

Outros Transtornos Específicos (OSFED)

O grupo OSFED (Outros Transtornos Alimentares ou da Ingestão Alimentar Especificados) engloba condições que causam sofrimento real mas não fecham critérios completos:

Síndrome do Comer Noturno

A pessoa não tem fome de manhã, mas à noite consome mais de 25% das calorias do dia, muitas vezes acordando de madrugada para comer (com consciência plena, diferente do sonambulismo). Está ligada a desregulação do ciclo circadiano e melatonina.

Transtorno de Ruminação

Não confundir com refluxo. É a regurgitação repetida e voluntária (mas sem náusea) do alimento recém-ingerido, que é remastigado, engolido novamente ou cuspido. Pode causar desnutrição, erosão dentária e isolamento social severo por vergonha do ato.

Pica (Alotriofagia)

O desejo persistente de ingerir substâncias não nutritivas: terra, gelo (pagofagia), cabelo, tinta, papel. Frequentemente associada a deficiências minerais (como falta de ferro/anemia) ou deficiência intelectual, mas pode ocorrer em quadros de estresse intenso.


Tratamentos Específicos para Estes Quadros

Como não envolvem necessariamente o medo de engordar, o tratamento muda:

1. Dessensibilização Sistemática (Para TARE)

É uma técnica de exposição gradual. O paciente não é forçado a comer o alimento “assustador” de uma vez.

Etapas: 1. Olhar para o alimento -> 2. Cheirar -> 3. Tocar -> 4. Lamber -> 5. Morder e cuspir -> 6. Engolir.

Tudo feito em ambiente seguro, com terapeuta ocupacional ou fonoaudiólogo especializado em disfagia/seletividade.

2. Reestruturação Cognitiva (Para Ortorexia)

O foco é desconstruir o pensamento mágico de “pureza”. O paciente aprende que comer um brigadeiro não vai “sujar” seu corpo ou causar uma doença imediata. A meta é a flexibilidade metabólica e mental.

3. Tratamento Médico de Base

Para casos de Pica, repor o ferro ou zinco muitas vezes cura o comportamento. Na Síndrome do Comer Noturno, o uso de medicamentos psiquiátricos que regulam o sono e a saciedade (como ISRS) é fundamental.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Meu filho só come nuggets e batata. É TARE?

Pode ser. Se essa restrição impede o crescimento, causa falta de vitaminas ou gera estresse familiar intenso, é provável que seja TARE e não apenas “fase”. A avaliação com gastropediatra e psiquiatra infantil é necessária.

Ortorexia vira Anorexia?

Pode evoluir. Começa cortando glúten, depois lactose, depois carboidratos… a lista de alimentos “permitidos” fica tão pequena que o paciente entra em desnutrição severa, desenvolvendo sintomas anoréxicos secundários.

Vigorexia tem cura?

Sim, mas a adesão é difícil, pois o paciente recebe reforço social positivo (“nossa, como você é focado/forte”). O tratamento exige psicoterapia para tratar a dismorfia corporal (ver-se pequeno).

Adulto pode desenvolver TARE depois de velho?

Sim, especialmente o subtipo “medo de consequências aversivas”. Um adulto que engasgou seriamente com um pedaço de carne pode desenvolver fobia e parar de comer sólidos abruptamente.

Comer gelo é doença?

A pagofagia (vontade de mastigar gelo) é um sintoma clássico de anemia ferropriva (falta de ferro). Tratar a anemia geralmente resolve o desejo. Se persistir, investiga-se causas comportamentais (Pica).


Referências Bibliográficas

  • American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing.
  • Bryant-Waugh, R. (2013). Feeding and eating disorders in children. Current Opinion in Psychiatry.
  • Dunn, T. M., & Bratman, S. (2016). On orthorexia nervosa: A review of the literature and proposed diagnostic criteria. Eating Behaviors, 21, 11-17.
  • Pope, H. G., et al. (2000). The Adonis Complex: The Secret Crisis of Male Body Obsession. Free Press.
  • Thomas, J. J., & Eddy, K. T. (2019). Cognitive-Behavioral Therapy for Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder: Children, Adolescents, and Adults. Cambridge University Press.